Dolores. Lola, para os mais próximos. Tanto fazia. O fato é que ela assumia sua identidade sem nenhum constrangimento. Por mais que lhe dessem nomes fortes, brilhantes, guerreiros, não passava daquela pessoa simples, que tinha como seu único feito heroico o fato de ter continuado a caminhar. Para frente.
Dolores acordava cedo todos os dias. Muito cedo. O que àquela altura do ano era um refrigério, visto que o sol já estava a pino muito antes das sete da manhã. Mas o que quero mesmo contar é que para ela acordar cedo era uma bênção, pois, assim, sentia sono à noite e não sofria com as insônias dos meses anteriores.
A noite era para ela a pior parte do dia. O momento em que estava só, consigo mesma, sem responsabilidades, sem ordens, sem metas a cumprir. Estava só, consigo mesma, e por sua conta. E por isso era a pior parte do dia.
Dolores chegava em casa e tirava os sapatos. Tirava a roupa e tomava um banho gelado. Ah, as maravilhas do verão. Abria uma garrafa de vinho e então começava a se despir. Despia-se da boa funcionária que era; despia-se da boa mãe que era; despia-se da boa vizinha que era; despia-se da boa colega que era; despia-se da boa filha que era; despia-se da boa mulher que fora.
Dolores, nua, consigo mesma, sentava sua alma de frente para o computador e começava a escrever. Pensava numa história, num romance, num poema, e as palavras saiam mudas de sua boca, passavam pelos seus dedos, filtradas pelo coração, e se quedavam naquela pequena tela de dez polegadas.
Dolores enchia e esvaziava taças. Às vezes ouvia música, às vezes via tv, às vezes conversava nas redes sociais, tudo ao mesmo tempo em que escrevia e buscava se inspirar.
Dolores gostava de pensar nos grandes escritores do passado, nos grandes poetas. Como deveriam sofrer, escrevendo à luz de velas papéis esparsos; quantos lápis e canetas pousados, enquanto um longo suspiro inundava aqueles ambientes... quantas xícaras de café, quantas doses de cachaça, quantas taças de vinho devem ter sido derrubadas em manuscritos que se tornariam clássicos nos dias de hoje... quanta solidão a escrita provocara...
Então, entre um suspiro e outro, Dolores soltava uma frase. Sustentava o olhar em algo vago, vasculhava sua memória, suas lembranças e ficava procurando um sentido para aquilo que escrevia. Sempre se justificava. Mesmo que aquilo não fosse nada, não tivesse sentido algum, não ficasse para a posteridade - como o pai costumava dizer - ela escrevia. Longe dela, muito longe, querer se comparar a alguns daqueles escritores que evocava em pensamento. Mas, de todo modo, o ofício era o mesmo (ainda que a arte final não o fosse), ofício tímido, único, solitário e sofrido de exprimir-se no papel, espremer-se toda, entre suspiros, soluços, e imagens fluidas, que depois de prontas ficariam ali, pra sempre. Fechadas na gaveta, presas na tela, guardadas na memória. Ninguém poderia rasgá-las. Ninguém.
Mas como eu contei, Dolores gostava de acordar cedo. Muito cedo. E já era tarde. Todos esses pensamentos embriagados já passavam da meia-noite. E mais um dia, graças a deus, mais um dia tinha se passado, sem a angústia da insônia rondando Dolores.
Dolores salvava o texto. Salvava-se. Mais um dia de sobrevivência de Dolores. Amanhã seria outro dia.
Sou, sempre fui e sempre farei questão de ser apenas alguém comum. Não me entendam mal. Não digo pra menos, e sim pra mais. Para a mais pura expressão do que é ser simples. Sou mesmo apenas alguém comum. E isso é tudo. É o que me motiva e me desafia.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
domingo, 22 de janeiro de 2012
Oceano
(Para Leninha, amiga querida, que suavemente me inspirou)
Troquei o mar por um oceano...
sou peixe, sou peixe, sou peixe...
alguém me fez lembrar
alguém que gosta de mim
Estou no píer. Olho para o horizonte, para o céu azul, coroado de brancas nuvens.
Atravesso o longo deck. O mar está verde. Esmeralda líquida.
Ele me chama.
Enfeitiçada, eu vou.
Me atiro.
De cabeça.
Mergulho.
Meu corpo ondula debaixo das ondas.
Infinitamente.
De repente, aparecem as escamas, a cauda.
Minhas guelras se abrem
Meus braços agora são nadadeiras.
Meus longos cabelos não me atrapalham.
Nadei.
Infinitamente
por apenas alguns momentos.
Debaixo d'água somos um só: eu e o oceano.
A mesma água salgada que sai dos meus olhos está agora reposta.
Recolocada eu mesma, em meu lugar.
sou peixe, sou peixe, sou peixe.
Saio do mar mas a água fica em mim.
salgada
me lembrando de que ele existe. ele existe. ele existe.
O oceano é maior, é infinito, e também está comigo agora.
transformado
transmutado
e então vejo que ele e eu somos um só.
Esmeralda líquida.
Água salgada que entra e sai.
sábado, 21 de janeiro de 2012
A velha estação de trem
Eu já me despedi de alguém numa velha estação de trem.
Europeu. Elitizado.
O trem e o meu amor que partiu.
E eu voltei pra casa sozinha, à noite,
dentro de um sobretudo negro pesado,
mais pesado que as dores da minha alma.
O trem e a gare,
Santa Apolónia,
a estação da qual meu amor partiu.
Voltei para casa a pé, mãos nos bolsos,
cabeça baixa
e a certeza de um fim.
Tão jovem, 18, 19 anos,
andando cabisbaixa na estação de trem.
Naquela época, mal sabia eu quantos amores teria pra me despedir.
Um é sempre único.
Cada um é único.
Princípio e fim de uma história singular.
Tantos anos se passaram
outros novos amores vieram e se foram.
E em cada partida a mesma dor.
O som ao fundo, do apito de trem...
A voz rouca, de músicos de jazz...
O barulho da porta se fechando...
O som das chaves, o molho de chaves, agora reduzido à metade...
A vida transportada em sacolas...
A angústia das palavras não-ditas, malditas...
O coração partido e a eterna vontade de recomeçar.
Europeu. Elitizado.
O trem e o meu amor que partiu.
E eu voltei pra casa sozinha, à noite,
dentro de um sobretudo negro pesado,
mais pesado que as dores da minha alma.
O trem e a gare,
Santa Apolónia,
a estação da qual meu amor partiu.
Voltei para casa a pé, mãos nos bolsos,
cabeça baixa
e a certeza de um fim.
Tão jovem, 18, 19 anos,
andando cabisbaixa na estação de trem.
Naquela época, mal sabia eu quantos amores teria pra me despedir.
Um é sempre único.
Cada um é único.
Princípio e fim de uma história singular.
Tantos anos se passaram
outros novos amores vieram e se foram.
E em cada partida a mesma dor.
O som ao fundo, do apito de trem...
A voz rouca, de músicos de jazz...
O barulho da porta se fechando...
O som das chaves, o molho de chaves, agora reduzido à metade...
A vida transportada em sacolas...
A angústia das palavras não-ditas, malditas...
O coração partido e a eterna vontade de recomeçar.
a volta
Tem gente (dentro de mim, e por isso)
tudo me dói.
Precisei tirar os sapatos
para conhecer as calçadas
A infância das calçadas
no meu caminho de volta.
Apesar de ser noite,
o chão estava quente.
Pisei em folhas
no meu caminho de volta.
Olho o relógio e não vejo as horas.
Mas sinto os meus pés pressionando o chão.
Meu caminho de partida não tem volta.
Mas mesmo assim, senti necessidade de caminhar com meus próprios pés
no meu caminho de volta.
tudo me dói.
Precisei tirar os sapatos
para conhecer as calçadas
A infância das calçadas
no meu caminho de volta.
Apesar de ser noite,
o chão estava quente.
Pisei em folhas
no meu caminho de volta.
Olho o relógio e não vejo as horas.
Mas sinto os meus pés pressionando o chão.
Meu caminho de partida não tem volta.
Mas mesmo assim, senti necessidade de caminhar com meus próprios pés
no meu caminho de volta.
Tudo me dói
tudo me dói
o que vejo
o que escuto
o que toco
o que cheiro
o que deixo de provar.
tudo me dói e se apega em mim,
me deixando pesada,ancorada
sem forças para me levantar.
tudo me dói e não vejo para onde ir.
tudo me dói
mas preciso continuar a fingir.
enxugo as lágrimas com um papelzinho.
pronto. saí de fininho.
o que vejo
o que escuto
o que toco
o que cheiro
o que deixo de provar.
tudo me dói e se apega em mim,
me deixando pesada,ancorada
sem forças para me levantar.
tudo me dói e não vejo para onde ir.
tudo me dói
mas preciso continuar a fingir.
enxugo as lágrimas com um papelzinho.
pronto. saí de fininho.
Rasgue tudo
Me pediram para rasgar tudo.
Me ofendi, profundamente.
O tudo é o nada.
É tão pouco.
Alguém se envergonha das minhas palavras, dos meus escritos.
Alguém que nem se importa me pediu para rasgar tudo.
Mas não consegui me rasgar por dentro.
O tudo é tão pouco.
O tudo é a minha alma.
Como eu podeira rasgá-la?
Não consegui rasgar tudo.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Cicatrizes
Não ostento símbolo algum do matrimônio,
mas carrego cicatrizes comigo.
Duas no ventre,
uma no coração.
As da maternidade são leves, quase imperceptíveis.
A do coração, profunda.
Talvez as primeiras sejam leves por representarem quem está sempre presente.
A outra, inversamente significa.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
tenho estado exausta
não bastassem minhas tarefas diárias, precisei hoje enfrentar duas feras, dois seres animalescos e pré-históricos:
uma barata e uma lagartixa.
antes de eu ser ridicularizada, quero ter o direito à defesa. Auto-defesa, já que sou somente eu por mim mesma desde sempre.
a primeira era voadora. adentrou a paz de meu lar, varanda a dentro, de onde eu jamais supunha vir tanta maldade, dadas as belezas matinais que me contemplam diariamente.
a segunda, alojada no chão do meu banheiro. no meu banheiro... salvei minha escova de dentes e interditei o local.
meditei por longos minutos e fiquei a me questionar:
não bastasse o mal feng shui da minha janela do quarto ter uma rua apontando pra mim, vetor de um péssimo trânsito; não bastasse o poste de iluminação da rua no ângulo certo do meu travesseiro; não bastasse o barulho dos lixeiros de madrugada, no melhor dos meus sonhos; não bastasse o ruído contínuo da rota dos aviões e dos caminhõezinhos descarregando na padaria; ainda essa agora? sucumbirei com a janela fechada por medo das bestas-feras? nem mais o prazer dos ventos, balançando as cortinas e vindo me visitar?
como me senti infeliz, por um momento tão insignificante, por segundos que não valem nada e vão ficar na memória uma vida inteira...
reconheço: tenho estado exausta. somente isso explica o fato de tão grande importância dada a tão minúsculo e desimportante significado.
uma barata e uma lagartixa.
antes de eu ser ridicularizada, quero ter o direito à defesa. Auto-defesa, já que sou somente eu por mim mesma desde sempre.
a primeira era voadora. adentrou a paz de meu lar, varanda a dentro, de onde eu jamais supunha vir tanta maldade, dadas as belezas matinais que me contemplam diariamente.
a segunda, alojada no chão do meu banheiro. no meu banheiro... salvei minha escova de dentes e interditei o local.
meditei por longos minutos e fiquei a me questionar:
não bastasse o mal feng shui da minha janela do quarto ter uma rua apontando pra mim, vetor de um péssimo trânsito; não bastasse o poste de iluminação da rua no ângulo certo do meu travesseiro; não bastasse o barulho dos lixeiros de madrugada, no melhor dos meus sonhos; não bastasse o ruído contínuo da rota dos aviões e dos caminhõezinhos descarregando na padaria; ainda essa agora? sucumbirei com a janela fechada por medo das bestas-feras? nem mais o prazer dos ventos, balançando as cortinas e vindo me visitar?
como me senti infeliz, por um momento tão insignificante, por segundos que não valem nada e vão ficar na memória uma vida inteira...
reconheço: tenho estado exausta. somente isso explica o fato de tão grande importância dada a tão minúsculo e desimportante significado.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Primeiro escrevi para não esquecer,
mas pus na gaveta, de nada adiantou.
Depois rasguei para não lembrar,
mas cada vírgula se manteve viva, fraudando minhas intenções.
Então decoro palavras e declamo para mim mesma versos aos ventos.
Oportunamente escolho as dunas
Cenário movediço
onde cada palavra nasce e morre
ao mesmo tempo
Assim também eu: nasço e morro sem nenhum alento.
tenho virado páginas
tenho virado páginas.
o tempo passa correndo.
certeza única: nada é definitivo.
meus planos têm sido constantemente adulterados.
fui arrebatada por um vendaval de anarquia fora de época.
Fui jovem
e agora sou velha como nossos pais,
aqueles, "cabelo ao vento, gente jovem reunida,
e na parede da memória o quadro que dói mais".
O tempo me trapasseou, me ultrapassou, me alçou a um lugar inimaginável.
O tempo me passou.
Onde fui parar eu, dentro do tempo de mim?
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