Dentre as diversas coisas que aprendi ao longo da vida, colocar um copo no freezer é de uma praticidade singela e primordial.
Em dias como o de hoje (chuvosos, incertos, avulsos de significado), nos quais a solidão não atrapalha e nem ajuda, contar com uma cerveja gelada, bebida num copo gelado, pode conferir um "ar" todo especial.
Eu bebo, sim, e estou vivendo (dizia a canção) - e, embora longe de mim fazer apologia ao álcool, já dizia o mestre Lobão: um café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício...
E a solidão não me é piegas. É amiga. É (quase) escolha. É oportunidade de viver de mim para mim. De mim comigo mesma.
Nem todo mundo tem a oportunidade ou a vontade de se expor, de se desnudar, de ficar cara a cara com a vida. Pois bem, me foi dado um átimo de coragem e aqui eu declaro: só eu me escolhi como fiel companheira.
Houve os que me renegaram, os que me deixaram partir, os que me refutaram à primeira vista, os que provaram e não gostaram, os que não quiseram repetir, os que fugiram aterrorizados... enfim, demorei e aprendi: eu me escolhi. Eu me escalei paro o time, eu me dei o papel principal, eu me aprovei para o cargo. Agora, eu dirijo o projeto. E, por fim, eu brindo comigo mesma.
Num copo geladinho.
Sou, sempre fui e sempre farei questão de ser apenas alguém comum. Não me entendam mal. Não digo pra menos, e sim pra mais. Para a mais pura expressão do que é ser simples. Sou mesmo apenas alguém comum. E isso é tudo. É o que me motiva e me desafia.
sábado, 12 de novembro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Tem camarão? Tem, sim senhor!!!!!
Sábado chuvoso. Semana chuvosa. Aliás, mês chuvoso.
Acho que fui vítima de uma propaganda enganosa. Pensei que moraria numa ilha, tropical, praia, sol, calor, conchinhas, drinks de abacaxi.... Bem, na verdade, só está mesmo faltando o sol.
O meu bairro se chama Jardim da Penha. Dizem que tem esse nome porque é muito plano e se estende como um jardim à beira-mar, aos pés do Convento da Penha, padroeira do Espírito Santo e minha madrinha, nesta última temporada. Quando andamos na praia, de qualquer ponto se pode avistar o Convento, ao final da Terceira Ponte. E realmente posso me sentir "uma flor" do Jardim da Penha.
Dentre as inúmeras maravilhas do meu bairro está a Feira do Jardim da Penha, aos sábados. (Abro aqui uns parênteses: quem é de S.P/Capital nem sabe o que é deixar de ter uma feira por perto... nem liga para a maravilhosa variedade que se pode ter ao alcance das mãos, não sabe o que é ficar sem uns pastéis com caldo de cana... preciso explicar que em BH a feira é quase inexistente. E eu estava com quinze anos de abstinência de passear por entre frutas, legumes e verduras fresquinhos, ouvir as cantilenas dos feirantes, ir provando pedacinhos aqui e ali, planejar o cardápio da semana e sair carregadíssima de sacolas....).
Pois bem, decidi que hoje iria à feira e iria comprar camarões. Modestos. Daqueles pra fazer um almocinho caseiro. E não é que amanheceu chovendo? De novo!!!! Mas, determinada, fui assim mesmo. Sacola na mão, uma ideia na cabeça. Além do dinheiro no bolso, óbvio.
Durante a semana, havia pedido umas dicas para minha amiga e Chef Celita. Ela me deu tantas ideias que daria pra fazer um festival gastronômico do camarão.... Também um outro amigo contribuiu com sua receita, o Jeferson. Ainda bem que temos esse contato virtual... gostaria tanto de ter todos comigo, aqui em casa, almoçando, comemorando... como isso já é difícil.... pensei em dividir meu almoço com vocês.
Munida dos melhores ingredientes, armada com facas e panelas, paramentada com meu avental, coloquei o almoço em prática. Preciso dizer que não segui nenhuma receita à risca. Li todas as dicas e as misturei todas.... criei meu próprio cardápio, com base intuitiva e nos conselhos de meus amigos.
Arroz branco salpicado com coco-fresco torradinho na manteiga
Camarão refogado no creme de leite e requeijão com um toque de bacon
Couve-flor cozida com salsinha e parmesão
Máquina em punho, Danilo, meu fiel escudeiro, registrou algumas cenas pra ver se vocês, alguém que seja, aprovam. Fica feito o convite....
domingo, 16 de outubro de 2011
VARAL
Aqui estou eu de novo. Apertei o ligar.
Dei uma grande pausa, mas depois precisei chacoalhar incessantemente na máquina de lavar.
Fui encharcada, agitada, torcida, espremida, centrifugada.
Entrei cheia de nódoas e ainda não sei como (me) saí.
É preciso me estender, secar ao sol, me expor ao sol pra ver o estrago feito.
Ou não.
Às vezes entramos um e saímos outro.
Às vezes entramos um e saímos o mesmo - melhorado.
Limpo.
Eu ainda não sei.
Programei a lavagem mais longa e pressinto que a secagem também o será.
Nesse meu varal imaginário, cheio de sol, posso abrir os braços, fechar os olhos,
sentir o vento passando bem forte pelos meus cabelos.
Posso parar e deixar o tempo passar.
O tempo e o vento, amigos que brincam comigo.
Sou joguete nas mãos do tempo. Sou joguete nas mãos do vento.
Mas confio neles.
Brigo. Finco o pé e não arredo dali.
Posso comprovar o quanto sou forte. O quanto sou resistente. O quanto sou determinada.
O vento não me derruba.
O tempo não me apavora.
Eles passam por mim, mas eu resisto a eles.
Um dia vou secar.
(Será bom?)
Secar e apagar de mim as manchas, as nódoas, as mágoas.
Minhas mãos ficarão firmes.
Minhas pernas ficarão fortes.
Minha cabeça ficará erguida.
Meu coração ficará leve.
e o resto?
o resto ficará como tem de ser.
sábado, 9 de julho de 2011
Carregamentos móveis
Adoro essa dupla vocabular: Carregamentos Móveis. Minha mente voa. Meu raciocínio ecoa. E flui para tão longe do significado original que é preciso escrever, para reencontrar o ponto de partida.
Pois bem, evocando um místico sentido que possa haver em carregamentos móveis, há tempos venho pensando no que levar, ou seja, no que posso carregar comigo.
Claro que antes de tudo preciso informar ao leitor sobre a Teoria Minimalista - da qual sou secreta e não empiricamente adepta. Trata-se, obviamente, como o nome já diz, do mínimo, de se tentar viver com o mínimo.
Embora mais por precisão que por convicção, a Teoria Minimalista me acompanha diariamente, desde o meu despertar. Em tudo o que faço, penso ou compro. Está no meu café da manhã, no meu guarda-roupa, nas compras do supermercado, nas viagens que faço (meu pai achava graça ao me ouvir contar como reduzira a mala, até chegar ao mínimo: a escova de dentes; então, eu chegava à conclusão de que nem a escova de dentes eu precisaria levar, pois já tinha uma lá... mas ele não viu, pois nunca consegui viajar sem nada, embora continue tentando).
Sempre gostei também de pensar na mala-ideal (outra teoria que venho desenvolvendo há anos...). Além de ser aquela que eu mesma possa carregar, sem necessitar de ninguém, nessa mala-ideal as roupas têm que "conversar" entre si, naturalmente podendo ser tão versátil quão variada.
Pois bem, nessa linha da teoria Minimalista e da Mala-ideal, tenho gastado meu tempo pensando em meus "carregamentos móveis" - par perfeito de sonoridade e sentido (pena eu não ter inventado esse termo antes....). Olho ao meu redor e me pergunto: "isso vai? isso é necessário? isso terá utilidade? isso eu posso carregar?" Preciso me dar conta de que o peso que conseguirei carregar será pouco e o espaço será pequeno, portanto, o volume (novamente o volume!) tem de respeitar o percentil mínimo.
Ao passar os olhos e descartar as coisas (pensando somente em sua essencialidade de funções) quase tudo se torna dispensável. Também, vendo por outro ângulo, quase tudo se torna multifuncional, se umas coisas puderem substituir outras. Bem, mas nesse passeio de olhos pela casa, pelos móveis, vou fazendo um inventário mental: do andar de cima, com certeza, vão os livros (mas não todos); meus papéis guardados (mas não todos); a máquina de escrever antiga, a máquina-registradora (a qual será minha peça-prima na decoração da nova sala.... decoradores de interior, preciso de vocês!!!! )*. Do andar de baixo, os pertences dos meus filhos; as louças decorativas de mamãe; minhas roupas; alguns CDs; toalhas, toalhinhas e pecinhas de crochê ganhadas da Tia Julieta ao longo da vida ou herdadas de minha avó. Queria levar a geladeira e a máquina de lavar. Mas são muito grandes. Vão caber em meu novo espaço? Acho que vou deixá-las. Minha filha me fez lembrar das bicicletas... É tudo. Ao mesmo tempo esse tudo é tão pouco! Talvez tenha esquecido uma ou outra coisinha (preciso "perder" mais tempo nesses pensamentos), mas fico me perguntando: "Precisarei de um carregador para meus carregamentos móveis? O que deixarei de herança?"
Preciso esclarecer que muito dessa Teoria Minimalista se deve a dois fatores:
1) Sempre tive um espírito muito livre. Já viajei muito e já mudei muitas vezes de casa, cidade e país. Por isso desenvolvi um, digamos, lado prático.
2) Sempre cumpri sozinha a minha jornada. Rodeada de amigos ou mesmo fazendo muitos irmãos ao longo do caminho, mas sei que minha caminhada é individual. Por isso, desenvolvi uma habilidade em levar comigo apenas o que eu possa carregar.
Além disso, nos últimos tempos desenvolvi uma relação de amor e ódio com muitos de meus objetos e com quase todas as minhas plantas. Os primeiros, porque foi a maioria deles que se impôs a mim, sem pudores ou pedidos de licença. Foram chegando atabalhoados, herdades, vindos de outras casas ou comprados às pressas, satisfazendo mais as necessidades urgentes de precisão que de prazer ou satisfação por possuí-los.
Já as plantas, porque elas são muito teimosas. Várias vezes quis deixá-las morrer. E elas resistiram. No final, quis reavivá-las. Mas elas resistiram! Se negaram! Em janeiro eu arrastei todos os vasos, tirei todos os matos, aparei todas os galhos secos, afofei todas as terras, fertilizei cada uma das folhas... Até plantei onze-horas lindas! (essas, sim, vingaram em três cores: branco, rosa e escarlate). Mas as outras plantas! Resultado: unhas estragadas, espinhos nas mãos, dois dias de cataflan e dor nas costas. E elas? Secas, inertes, pálidas, meio entregues mais às intempéries e ao cansaço que propriamente a um recomeço de vida verdejante.
Resumindo: foi disso tudo que tirei a sensação de que com alguns objetos e algumas plantas eu não preciso mais me relacionar, já que deles posso me separar sem problemas ou litígios. Posso deixá-los ao acaso, para a posteridade. Embora sinta remorsos. E culpa. E até uma saudadesinha antecipada já despontando...
Carregamentos móveis
(suspiro)
Então, tento manter a calma. Preciso me conter para poder continuar.
Hoje não vou precisar tomar nenhuma atitude.
Hoje não vou precisar carregar nada.
Hoje não vou precisar partir.
############################################
Notas de esclarecimento:
* É claro que aqui preciso fazer uma notinha muito importante. Foge ao texto em si, mas tem tudo a ver com o meu momento! É que vejo, sinto minha evolução... estou começando a "aceitar" em vez de tanto querer "ser aceita"... Para os que me "leram" antes, ou mesmo para os que me conhecem, os que sabem da "persecutoriedade" em mim do signo que me rege, sei que compreenderão o quanto essas palavras fazem sentido. Venho me redimir com os sofás, almofadas e relógios de parede centralizados...
** A segunda notinha é uma espécie de "mea culpa" antecipado. Pode parecer que estou sendo irônica ou querendo magoar pessoas muito importantes para mim. Mas não é; é o oposto. Quero dizer que posso transitar pelo lado estético da vida (com dificuldade, tateando), mas, principalmente, pedindo e aceitando ajudas.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Morri um pouco
"Viver não é fácil..." - reclamamos diariamente.
Mas quando nos deparamos seguidamente com a morte, penso que morrer não é fácil... Hoje, de novo, eu morri um pouco. São tantas as perdas, tantas as dores, que tenho me sentido no automático...
Recebi a notícia da morte de uma amiga... e aquele emaranhado de imagens da adolescência desabaram na minha cabeça, misturando lembranças, conversas, risadas, emoções fortes... parece que um portal do tempo se abriu e o passado se misturou ao presente no aqui e agora. Posso voltar a abrir a janela do meu quarto de adolescente e rever minha amiga lá, tocando violão, fazendo bagunça... Posso fechar os olhos e me ver passeando pelas ruas do meu bairro, indo ou voltando para o colégio, ou indo para a casa dela. Mas, então, quando eu abro os olhos... vejo que estou só, em outra cidade, quase trinta anos se passaram, e, em vez de rir...
Não quero nem me dar o direito de chorar... a culpa é minha por ter deixado tanto tempo passar...
Claro que fomos limitadas por barreiras físicas: eu morei em Lisboa, ela morou no Japão... mas isso foi no século passado... se mesmo assim continuamos nos falando, escrevendo... por que não continuamos depois, aqui? Por que eu não continuei?
Vejo como é errado a gente se afastar dos amigos... o fato de termos um bom sentimento, lembranças agradáveis, não é o bastante! Ah, se eu pudesse aprender a lição... Tantas vezes eu me fecho, eu me isolo, eu tenho vergonha dos meus sentimentos ou dos problemas pelos quais estou passando. Tantas vezes eu me fecho em mim mesma, até mesmo pra preservar o outro... só agora eu vejo que isso não me ajudou em nada, só me isolou.
Ontem assisti a uma matéria no jornal, dizendo que poderemos viver até os 150 anos. Na hora mesmo eu pensei que só seria bom se tivéssemos com quem compartilhar... imagine só: você, com boa saúde, boas condições físicas, experiência de vida, até, quem sabe, um dinheirinho da aposentadoria, talvez cheio de netos adultos, algum filho?, parentes?, mas, então, quer conversar sobre os seus assuntos pessoais e preferidos (provavelmente do século passado), quem irá te fazer companhia?
Eu fiquei pensando, com quem iria recordar as viagens que fiz, os shows a que assisti, os poetas preferidos, colegas e professores da escola, histórias engraçadas, fatos políticos, tudo!?, quem iria fazer coro comigo: - "É mesmo, vivemos tudo isso". Quem? Sendo assim, se não for rodeado de amigos e pessoas que nos fazem a diferença, pra que viver até os 100, 150 anos?
E, é claro, que um pessimismo caiu em cheio em mim, envolvendo todo o meu ser. Pra que tantas lutas? Tanto empenho? Tanto sofrimento? Pra que querer ser aceito, querer melhorar, querer ultrapassar barreiras e limites? O fim é tão só, tão triste... Relembrei do Ira! e dos Meus dias de luta:
"Só depois de muito tempo
Comecei a refletir
Nos meus dias de paz
Nos meus dias de luta
Se sou eu ainda jovem
Passando por cima de tudo
Se hoje canto essa canção
O que cantarei depois? - O quê?"
Sei que agora, neste exato momento, só me resta esperar o tempo passar, lavando minhas dores e angústias e torcendo para que a minha mais forte característica fique: a fé. Essa mesma fé, que me traz tanto sofrimento, é o que vai segurar meu espírito dentro de mim, pra que eu também não vá embora. E não estou falando de fé religiosa. Trata-se da fé como força, como crença, como esperança. E embora hoje eu sinta desesperança, eu sei que o tempo vai passar. Vai levar o que for preciso e vai me deixar melhor. Eu tenho fé... E, então, também me lembrei de Flores...
"De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois...
Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer...
Que vejo flores em você!...
De todo o meu passado
Boas e más recordações
Quero viver meu presente
E lembrar tudo depois...
Nessa vida passageira
Eu sou eu, você é você
Isso é o que mais me agrada
Isso é o que me faz dizer...
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!
Que vejo flores em você!..."
** Numa estrela cintilante!
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Ontem envelheci 10 anos
Atingi a maioridade. Fiz 21 anos mas parece que envelheci dez. Mas, ao invés de querer voar, passei a ficar ranzinza. Achar normal engordar. Não ter vontade de tomar banho ou cortar o cabelo. Não sair. Não rir. Não achar nada legal pra fazer. Tenho me sentido ordinária, vulgar, comum, mesmo. É que vivo num jogo de esconde comigo. Sou apenas alguém comum. Não sou. Às vezes gosto. Às vezes, não.
Tenho sim (tenho mesmo!) amigos que me elogiam e me elevam, e sinto que cometem crimes comigo: fazem-me acreditar que - destoando de minhas definições próprias - eu possa me tornar alguém especial. E nesse balé de contratempos vou me perdendo ou me encontrando de mim mesma, do que fui, sou, serei ou pensei que alcançaria ser.
Alguém poderia me responder se é possível viver sem um relógio centralizado na parede? Ou melhor, alguém poderia fazer coro comigo? E porque é que eu me incomodo tanto? Eu penso tantas coisas dentro de mim. E penso sempre de dentro pra fora. Nunca reparei num conjunto de almofadas. Isso é errado? Tenho visto as pessoas serem bem sucedidas de acordo com a capa. Enquanto eu, que tantas vezes revisito o meu interior, não consigo me propagandear. Não consigo dizer: - "Ei, eu estou bem! sou decidida, determinada, forte até morrer! sigo há tempos numa jornada sem fim, mas estou bem! Minhas roupas não combinam e meu sofá é velho, mas estou prosseguindo..."
Sabe aquela velha e preconceituosa piada do sujeito que não consegue ser o bastante para ser engenheiro e nem tão pouco para ser arquiteto? Vira, então, decorador de interiores... Isso é horrível. Confesso. Mas é o que tem ecoado em mim nestes últimos dias. Alguns decoram interiores e eu procuro descobrir os meus terrenos internos. Isso me faz melhor? Não, se no fim sou eu quem sofre. O decorador olha pro teto, mede o chão e define: cabe; não cabe; fica bem; não fica. Ele é assertivo. E eu? Meus terrenos interiores são vastíssimos e não me permitem ser categórica. Piso sempre em areias movediças. E sempre cometo o erro de não ser cautelosa: vou com tudo, me jogo, me esbaldo. Tenho fé e acredito piamente no que é apenas um aceno, uma promessa... depois me acabo de chorar com a dúvida, a incerteza, a vontade de querer continuar acreditando. O meu tempo não é contado pelo relógio da parede. O meu descanso nem é físico. Meus sonhos não são gestados no sofá da sala. Acho que é por isso não consigo prestar atenção nas almofadas...
Mas não quero mais discutir com os decoradores. Quero aceitá-los, conviver com eles, embora sinta que tenho de lutar para ser aceita como sou - ou penso que sou, ou penso que mostro que sou. É difícil transitar pelos mundos. Por mais que eu tenha experiência em ser peregrina. Não quero mais ser apenas alguém comum. Quero ser apenas alguém normal... Mas então, uma vez conhecido o Fernando, é inarredável em mim o sentimento de ser estrangeiro. Aqui como em qualquer parte. É a minha sina. O meu fado. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira. Sou estrangeira ...
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Homenagem ao Fernando
Hoje Fernando faz anos.
E está só. Novamente. Assim como eu.
Hoje Fernando tem dúvidas, angústias, queixumes.
E está só. Novamente. Assim como eu.
Hoje Fernando se sente reles, vil, baixo.
Hoje Fernando se deita na relva e conhece a realidade.
Hoje Fernando é um eterno estrangeiro - aqui como em toda parte.
Grandes goladas de ar suspirado fizeram Fernando engasgar.
Assim como eu.
Uma vez Fernando disse que em sua biografia só havia duas datas: nascença e morte - e entre uma e outra, todos os dias seus. Hoje é teu dia, Fernando, mas também é o meu. Embora não tenhamos nada em comum, embora sejamos opostos, sexos distintos, um século distado e sequer tocássemos as mesmas bordas do tempo, eu provei das águas do teu rio. Ao banhar meus pés e mãos nas águas de tua aldeia, pude saber tudo. E, do cimo de tua casa caiada, vi tuas paisagens, senti teus aromas de figos maduros, toquei a rugosidade das cortiças e vislumbrei os amarelos dos girassóis. E eu me deixei ficar por ali. Feitiço? Aquela relva, aquele vapor, aquela tabacaria, tudo misturado em mim. As águas de um rio, as águas do rio, rio, rio, rio...
Fernando-sabido, Fernando-escondido, Fernando-em-flor: nasce, cresce, vive, desabrocha em dor...e está só. Novamente. Assim como eu.
"Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem sentimento.
Nada ´speres que em ti já não exista.
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
sorte se a sorte é dada."
Eu me vesti para a festa
Eu me vesti para a festa.
E eu me arrumei.
Me olhei longamente no espelho.
Observei meu rosto: os olhos, a testa, rugas, sinais de expressão.
Fios de cabelos brancos despontando.
Novamente meu olhar cruzou o espelho e atravessou a fronteira palpável.
Quem era eu ali? Quem eu procurava dentro daquela imagem?
A hora chegava.
Estaríamos lá.
Todos.
E isso era o que eu pensava naquele dia enquanto me arrumava.
Eu me arrumei e me culpei.
O fato de ter ido ao evento, alegre e triste, me matou um pouco por dentro também.
A festa era de despedida...
E eu me arrumei.
Me olhei longamente no espelho.
Observei meu rosto: os olhos, a testa, rugas, sinais de expressão.
Fios de cabelos brancos despontando.
Novamente meu olhar cruzou o espelho e atravessou a fronteira palpável.
Quem era eu ali? Quem eu procurava dentro daquela imagem?
A hora chegava.
Estaríamos lá.
Todos.
E isso era o que eu pensava naquele dia enquanto me arrumava.
Eu me arrumei e me culpei.
O fato de ter ido ao evento, alegre e triste, me matou um pouco por dentro também.
A festa era de despedida...
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Longe
Estive ausente nos últimos dias.
Assim como acontecem as constipações de outono, a fraqueza me pegou em cheio. E, como era de se esperar, a quem quer que seja e que esteja com baixa imunidade. O fato é: minha alma partiu-se em mil. Estive doente de alma.
Quis chorar: não consegui. Quis gritar: encabulei. Quis pedir socorro: fraquejei.
Segui, então, na minha vidinha rotineira, sendo grata pelo sol que ilumina minhas manhãs; por eu saber fazer uma xícara de café; por ver que minha orquídea dará a segunda florada; por escutar pássaros no jardim...
Caminhei para frente e olhei para cima, mas na verdade sinto um grande soluçar, uma dor e uma tontura que quase me impedem de prosseguir.
Quero abraçar meus amigos e ser por eles abraçada. Mas como anunciar isso de forma simples? Sem assustar ninguém? Estou tão longe...
Então esperei. O que podia passar, passou. O que devia ficar, ficou.
Percebi que não gosto mais do frio. Que qualquer pedacinho de papel na rua pode evocar lembranças. Que tudo é rápido e demorado ao mesmo tempo - deve ser por isso que uma simples hora tem muito mais que mil segundos...
Assim como acontecem as constipações de outono, a fraqueza me pegou em cheio. E, como era de se esperar, a quem quer que seja e que esteja com baixa imunidade. O fato é: minha alma partiu-se em mil. Estive doente de alma.
Quis chorar: não consegui. Quis gritar: encabulei. Quis pedir socorro: fraquejei.
Segui, então, na minha vidinha rotineira, sendo grata pelo sol que ilumina minhas manhãs; por eu saber fazer uma xícara de café; por ver que minha orquídea dará a segunda florada; por escutar pássaros no jardim...
Caminhei para frente e olhei para cima, mas na verdade sinto um grande soluçar, uma dor e uma tontura que quase me impedem de prosseguir.
Quero abraçar meus amigos e ser por eles abraçada. Mas como anunciar isso de forma simples? Sem assustar ninguém? Estou tão longe...
Então esperei. O que podia passar, passou. O que devia ficar, ficou.
Percebi que não gosto mais do frio. Que qualquer pedacinho de papel na rua pode evocar lembranças. Que tudo é rápido e demorado ao mesmo tempo - deve ser por isso que uma simples hora tem muito mais que mil segundos...
Carta registrada
Acabei de receber um envelope com letras grandes e redondas marcando o meu nome.
Meu nome inteiro, que rima com as palavras amor de menina, que minha mãe gostava de pronunciar. Só faltava estar escrito "para a senhorita Amor de Menina".
Sim, o envelope era de minha mãe. Carta registrada, enviada pelos Correios. Envelope manuscrito. Quem tem mãe professora sabe como é bonita a letra da mãe da gente. Inigualável e única, como a própria remetente.
Mas esse envelope é muito triste. Marca uma primeira correspondência no singular. Tem uma urgência burocrática e é frio como todos os formulários o são. E eu nem consegui abri-lo ainda, apesar de já saber do seu conteúdo.
No entanto, o tamanho da caligrafia de minha mãe imprime seu amor... seu gesto revela tanta preocupação, tanto zelo, tanta praticidade. Mas o que eu gostaria mesmo é que essa carta me trouxesse os poemas da mãe... que dentro do envelope tivesse um papel perfumado e amarelado com dizeres tais como: quisera dizer-te coisas, que trago no coração...
Mas vou abrir o envelope. Vou assinar os papéis e remetê-los. Sei que isso vai deixá-la mais tranquila, embora ache que é cedo, desnecessário.
Se não soubesse que os papéis iriam diretamente a outro destinatário, dentro colocaria um bilhetinho: "assinado com amor".
Meu nome inteiro, que rima com as palavras amor de menina, que minha mãe gostava de pronunciar. Só faltava estar escrito "para a senhorita Amor de Menina".
Sim, o envelope era de minha mãe. Carta registrada, enviada pelos Correios. Envelope manuscrito. Quem tem mãe professora sabe como é bonita a letra da mãe da gente. Inigualável e única, como a própria remetente.
Mas esse envelope é muito triste. Marca uma primeira correspondência no singular. Tem uma urgência burocrática e é frio como todos os formulários o são. E eu nem consegui abri-lo ainda, apesar de já saber do seu conteúdo.
No entanto, o tamanho da caligrafia de minha mãe imprime seu amor... seu gesto revela tanta preocupação, tanto zelo, tanta praticidade. Mas o que eu gostaria mesmo é que essa carta me trouxesse os poemas da mãe... que dentro do envelope tivesse um papel perfumado e amarelado com dizeres tais como: quisera dizer-te coisas, que trago no coração...
Mas vou abrir o envelope. Vou assinar os papéis e remetê-los. Sei que isso vai deixá-la mais tranquila, embora ache que é cedo, desnecessário.
Se não soubesse que os papéis iriam diretamente a outro destinatário, dentro colocaria um bilhetinho: "assinado com amor".
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