Há tempos pensei em escrever algo que falasse sobre um balanço. Seria um texto para uma data redonda, confirmativa, dessas em que a gente se põe a pensar e a fazer balancetes do que se foi ou do que se quer. Planos para o que virá, após cuidadosa análise do que aconteceu.
A idéia não vingou. Não foi para o papel (nem para qualquer outro suporte) e ficou todos esses anos hibernando em mim, mais adormecida que esperta num cérebro, digamos, quase cansado.
Os últimos acontecimentos, porém, (coincidentemente?) têm vindo encadeados ao passado. Pessoas e, juntamente com elas, lembranças e memórias de fatos, circunstâncias, objetos, locais, datas, aromas, sons, cores e texturas me fizeram refletir e transmutar o ano do balanço em o Ano da Retomada.
Fui adolescente ontem e hoje vejo que já faz tanto tempo! Explico.
Ainda me lembro de quando fiz 14 anos e ganhei de meus avós uma mochila para levar as roupas para a praia, para quando viajávamos de férias... era azul-marinho com alças bege. Cabia tanta coisa lá dentro: chinelos, biquíni, sonhos...
Naquela época, eu era tão livre... costumava andar muito. Andava pela praia, pelas ruas de trás do prédio, ia tomar sorvete tão longe, a meia hora de caminhada. O sabor era sempre o mesmo: doce de leite! Andava com meus amigos da praia ou até ia ver os colegas do colégio que também passavam férias lá. De vez em quando, a gente ia ao cinema (ver filmes velhos pela metade do preço) ou aos parques de diversão, tão comuns para a época. Nunca abri os olhos no trem-fantasma, assim como nunca gostei dos carrinhos de bate-bate...
Já de volta a cidade, com o fim das férias, as coisas mudavam um pouquinho, mas mesmo assim eu sempre tive amigos no bairro, o que me permitia continuar minhas longas caminhadas. Fanny, Patty, Bernadete fizeram muitos roteiros comigo: sorveteria, padaria e qualquer lugar que fosse uma desculpa para dar uma voltinha e aproveitar a tarde. Naquela época da adolescência o lema era "Liberdade, ainda que à tardinha", como dizia o slogan de uma das camisetas engraçadas lançadas pela Chiclete com Banana, revista (clássica!!) de minha geração.
Tìnhamos um grupo na escola que se reunia toda quarta-feira à tarde, após as aulas. Nossa maior diversão era "almoçar" as porcarias da cantina. Havia um colega que morava na rua da escola e, é claro, que íamos pra lá enquanto nossa reunião de grupo não começava. Ivandro tocava piano. E eu ainda me lembro de ficar pedindo inúmeras vezes pra ele tocar uma música que eu adorava! E mais uma vez ele atendia ao meu pedido. Os acordes ecoam até hoje em meus ouvidos: tan nan nan nan nan, tan tan nan nan nan nan, tan tan ... "menina do anel / de lua e estrela / raio de sol / por sobre a cidade..."
Acho que o carro do pai da Patty era um Opala marrom. Cabíamos todos: pai, mãe, seus irmãos, ela e eu... sempre lá. Seus irmãos eram tão pequenininhos! E como eram amorosos! Beijavam e abraçavam a gente com tanto carinho...
Com a Bernadete descobri uma sorveteria tão longe! Era quase na Av. Tancredo Neves. Mas íamos assim mesmo. Tardes quentes de domingo refrescadas com um único sorvete de casquinha! a grana era curta, mas nossa conversa longa...
A Fanny ia na minha casa e levava o violão. Ficávamos horas cantando no meu quarto de adolescente.
O Jeferson nos levava amoras colhidas do quintal da casa dele. A blusa branca do colégio sempre ficava meio cor-de-rosa.
Eu sempre ia ver as apresentações de balé aquático da Mauê. Era tão especial! Uma amiga aquática, quase uma sereia de longos cabelos negros anelados, presos num coquinho de nada pra não atrapalhar dentro da piscina.
Eu também me lembro de ir a pé na casa da Anna Paula muitas vezes. Ficava na Rua Izonzo. Exatamente no final da rua. Era uma caminhadinha e tanto. Eu voltava antes de ficar de noite.
Essas lembranças todas e muitas outras voltaram de uma só vez, proporcionando uma retomada incrível, de toda uma época, do que vivi, do que pensei, do que quis, do que sonhei... É tudo tão nítido. Foi "ontem". Como eu poderia ter esquecido!?
Na verdade, vejo que o balanço é a própria retomada e já que sou fadada a passar por ambos, que a retomada vença, pois tem sabor, tem cor. O balanço é chato. É matemático. É crítico. A retomada, não. Tem sabor de lembranças, tem sabor de reconquista, tem sabor de recomeço - do ponto de onde se partiu.
E olha que já me vi partida tantas vezes... Sempre recomeçando. Sim. Por isso esse é o Ano da Retomada.