segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Luz

A luz do fim da tarde é a mais linda que existe.

É cheia de vida, de promessas, de esperanças.

Sob a luz do fim da tarde, não é preciso dizer nada. Basta estar de peito aberto - se só - ou de mãos dadas - se acompanhada.

Eu estou sentada sob a luz do fim da tarde. Olhos fechados, absorvendo o sol. O calor invade a alma, aquece, traz felicidade, enche de coragem, enche a vida de sabor.

Há uma brisa suave e perfumada.

Há canto de pássaros.

Há um desejo.

Essa luz do fim da tarde é minha amiga e não vai me deixar.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Felicidade a 9,99

Descobri que a felicidade pode custar R$ 9,99.

Comprei na 25 de março umas raquetes de frescobol (e umas bolinhas de reserva - que nem precisei usar!). Aplaquei o meu desejo e aguardei a hora certa de desfrutar desse prazer. Esperei um sábado de sol. Coloquei o meu biquíni. Passei um protetor solar cujo aroma me lembra as viagens à praia e comecei a jogar. Sozinha mesmo. Contra a parede, lá em cima, no meu quintal particular.

Em um segundo eu já estava ouvindo o barulho das ondas, sentindo o cheiro do mar, tropeçando nas areias da praia e até vendo gaivotas.

Joguei bem! muito bem! nem sabia que tinha guardado essa habilidade desde os meus oito anos! Joguei até com a mão esquerda - enquanto a direita descansava! E ria! Como ria! Imaginava o que os vizinhos diriam de mim! Pensei em convidá-los para dividir comigo esse momento tão agradável. Pensei em ligar para as minhas amigas: as de BH e o sexteto de SP! Pensei em como seria bom se os meus filhos estivessem aqui!

Mas não fiz nada disso. Apenas continuei jogando. A brincadeira me fez mais leve, me fez feliz, me fez ver o quanto é simples a alegria. Nós é que complicamos tudo. Nós é que vivemos reclamando de tudo. Nós é que estragamos tudo!

Hoje aprendi os benefícios do frescobol. Pretendo usar esse conhecimento para o resto da minha vida, que a partir de agora será sempre um dia de verão, à beira-mar...

Valentia

Fico tanto tempo sozinha que já não tenho mais medo. Nem de baratas, nem de espíritos, nem de filmes de terror, nem de pegar ônibus tarde da noite, nem da luz acabar...

Fico tantas vezes só que já me acho confortável.

Fico tanto tempo só que viajo pra dentro de mim e começo a achar que isso é o normal.

A exceção é ter a casa cheia, briga pelo controle da TV, louças empilhadas que ninguém quer lavar, filas indesejáveis no banheiro.

A exceção já não conta tanto. A regra é que me faz valente e a rotina é que me impulsiona.

Mas me parece que há algo errado nessa lógica. Há algo fora de prumo, algo meio esquisito.

Não sei bem o que é, mas deveria ser o contrário. Quem deseja a rotina e a solidão? Quem não quer compaixão?

O fato é que a vida está se virtualizando demais. Conversamos pela internet, compramos comida pela internet, ouvimos música, assistimos a filmes ou a programas pela internet, estudamos pela internet, trabalhamos pela internet. E nos basta.

Sem perceber, nem abrimos a boca - ou a porta - durante uma semana.

Por incrível que pareça, o que ainda me salva é o lixo. Como o lixeiro só passa até as 8h, sou forçada a acordar cedo, abrir a porta, descer as escadas, falar bom-dia aos vizinhos, ver a cor da rua e deixar verem que estou viva. Pelo menos dia sim, dia não, às 8 da manhã. Isso na minha cidade, pois nas mais urbanizadas, nem é preciso pôr o lixo na rua...

Então constato que isso não me faz valente. Isso não me impulsiona. Isso me deixa triste. Achar que isso é normal me deixa triste. O que realmente me faz valente é estar disposta enfrentar meus medos.

Descubro que minha coragem se mede dia sim, dia não, quando me disponho a jogar fora os lixos da casa. Ou vocês pensam que é fácil?

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Terapia alternativa

A tarde de 09 de janeiro de 2011 foi uma espécie de regressão. Apesar de sermos poucos, viemos muitos. Dentro de cada um de nós havia lembranças e gargalhadas de ontem... Como disse a Mauê, parecia que ontem havia sido sexta-feira do colégio e estavámos nos encontrando numa daquelas inúmeras festas da turma, para comentar sobre nossos colegas, professores, provas, paqueras, problemas com a mãe ou o pai ou o namorado/a e tantas bobeiras tão agradáveis a um bando de adolescentes de 14 e 15 anos ali presentes.

O resultado desse encontro foi tão bom, tão positivo, que parece que passei um mês inteirinho de férias com vocês... Foi uma terapia alternativa! Eu gosto de me considerar como a idealizadora desse encontro e a Patty foi a produtora oficial! Tão simpática! Ela e o Fernando não apenas cederam a casa como, realmente, nos acolheram e viabilizaram uma forma muito agradável de podermos conversar, nos abraçar, levar nossos filhos e tentar ultrapassar as saudades.

A Bernadete está igualzinha... a grande diferença é que agora tem o André pra chamar de seu. Fora isso, é a mesma menina, meiga, inteligente, engraçada e quieta ao mesmo tempo, vai entender!

A Anna Paula mudou muito! E para melhor! Está linda e continua atleta e engenheira. Continua uma mulher poderosa. De pequena, só a Amandinha...

O Jeferson é um lord. Você arrasou com as maçãs folhadas com canela quentinhas e sorvete de creme (vamos deixar os outros com um pouquinho de inveja...) Alex Atala que se cuide!!! Além das qualidades culinárias, continua aquele amigão alegre, prestativo, carinhoso, confiável.

E o Mauri!!! que figura!!! igual, igual, igual! A mesma alegria, tenacidade, sagacidade e soriso maroto (gostou?). É o mesmo garoto antenado e inteligente da época do colégio.

A Mauê está loira, de cabelos curtos e lisos rsrsrsrsrsrsrsrsrrs mas a voz continua igual! As risadas, as histórias, o sentimento forte de amizade continuam iguais. E que disposição! Veio direto do Guarujá e voltou no mesmo dia! É uma amiga de palavra e atitude!

A Del, eu sempre tenho visto ao longo desses anos todos, não sei dizer se mudou muito ou não. Mas seu traço mais marcante continua lá: a generosidade. Embutida nessa generosidade está a gentileza com que nos escuta e nos apoia, a paciência com que se interessa por nós e pelas nossas histórias, e a boa-vontade de dar carona e levar os "PNE" como eu pra casa.

A Patty continua sedutora! A mesma! É aquela linha tênue. Aquela que a gente tem que ter cuidado para não sentir ciúmes demais (dela e dos nossos!), pois não é que até a Luísa está encantada pela Patty! É a segunda geração das piscianas que te sabem ouvir...

A Cilene continua mais ou menos, sou suspeita pra falar. Uns dizem que não mudei nada (ou muito!)  - mas eu sei! Vocês me conheceram antes dos 20 e agora eu já estou depois dos 40!!!! Mas posso contar uma coisa que mudou em mim: na época da escola eu era mais tímida, insegura e jamais teria a coragem de hoje de falar do meu amor por vocês. Acho que é porque naquela época eu ainda não sabia o valor de ter amigos. Não, não é bem isso, é difícil explicar. Mas é que eu achava que as relações escolares iriam acabar ali. Jamais sonhei que sentiria a mesmíssima coisa ao revê-los vinte anos depois... só então pude verificar, comprovar, que o sentimento da amizade não muda, não envelhece, não desaparece.

Muitos colegas não foram, mas sei que gostariam de ter ido. A maioria respondeu ao nosso convite e disse que da próxima vez irá. Eu sei que quando nos reencontrarmos também será igual: um misto de alegria e emoção. Saudades do que passou, curiosidade, causos a contar. Espero que esse encontro seja logo e com um quorum maior.

Até breve!

O primeiro dia do ano

Quem é supersticioso sempre cumpre um ritual na passagem de ano. Há aqueles que vão para o litoral e fazem lindas oferendas a Iemanjá ou a seus orixás de devoção. O que se vê nas praias são flores, perfumes, presentes sendo enviados em barquinhos que deveriam chegar ao destino certo e agradar à rainha do mar.

Vestidos de branco, pulamos sete ondas, assistimos a várias queimas de fogos, acendemos velas nas areias e nos abraçamos. Fazemos promessas e pedidos. Mesmo sabendo que no dia seguinte toda a beleza estará transformada numa praia suja e impraticável: imprópria para o banho, seja ele de sol ou de mar. Mas formulamos desejos, mesmo assim.

Aqueles que não estão no litoral, também seguem suas tradições, seja na cor de roupa que vestem, no tipo de comida que comem, no tipo de rito que decidiram seguir. De igual modo fazem pedidos e formulam desejos.

Eu também já fiz tudo isso e mais: já comi doze uvas em doze badaladas; caroços de romã; lentilhas; evitei aves que ciscam para trás; usei roupas íntimas de diversas cores - consoante os meus desejos; pus galhinhos de arruda atrás da orelha; tomei banhos de ervas; coloquei dinheiro no bolso e, principalmente, já joguei as "nicas" no quintal; escrevi e rasguei meus projetos; deixei rezadeiras me benzerem; brindei com todos e com alegria; enfim, sorri, chorei; pedi, bradei, tudo pela simples e mística passagem de ano.

Há toda uma aura em torno desse dia. Há uma esperança bonita, sincera, quase verdadeira. Há uma disponibilidade para o novo, para a coragem, para o começar e para o recomeçar. Tem sido assim e vai continuar assim. Ouse um simples mortal desafiar essa ordem estabelecida!

Neste ano, precisamente nesta mudança de década, não foi diferente. Mesa posta, taças preparadas, fogos na varanda, boas-festas, roupa branca, alma límpida, familiares e amigos, sorrisos, sonhos, esperanças. E na minha frente o presente.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A origem da água

Conceição tinha mesmo uma mágoa muito grande, pois ela não acabava.

Conceição dizia que mágoa é a "má água" que carregamos dentro de nós.

Toxinas.

Podiam ser curadas com diuréticos, depurativos, dietas, suores e choro.

Ela fazia tudo isso, mas a mágoa não passava nunca... e quanto mais ela chorava, mais seu peito se enchia de mágoa.

Nesta época do ano, a má água costumava cair do céu. E, antes de ser um bálsamo, arrasava, assolava, aterrava todo mundo. No pior dos sentidos. Conceição morava no sudeste. E já não aguentava mais.

Ela passava muito tempo cabisbaixa, pensando em como tornar-se árida. Questão muito difícil. Nas mais diferentes ideias já havia pensado, inclusive já tentara ser forte, ser dura, ter ódio e alimentar-se apenas de farinha...

Claro que nada disso resolvera seu problema. Mas mesmo assim a insistência angustiosa de sua dúvida: por que as águas não passavam? não acabavam? não se gastavam? por que não tinham um fim em si mesmas? qual a origem da (m)água?

Em vão, Conceição, em vão! Essas águas não têm fim e também fazem parte de mim. Dito pelo não dito, termino aqui e assim.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Fim de férias ou início?

Viagem para fora de Minas


É viagem para dentro de mim

Cabelo Ventanil

Era um penteado. Um tipo de escova feita com os cabelos puxados para trás. Para dar a impressão de que o vento havia acabado de passar. Eram assim os meus cabelos nos meus 13/14 anos.

Cabelo ventanil.

Sabe aquela cena da Lília Cabral no filme Divã? -  "Repica, Renê, repica!" - Pois bem, chegou a hora e hoje vou repicar! Fios retos de uma vida perpétua vão embora para poder voltar a menina ventanil.

Engraçado que nessa "época ventanil" eu já quis ser fazendeira, pianista e aeromoça. Mas nunca movi uma palha para realizar isso. Eu achava que a definição de sonhos era o fato de serem auto-realizáveis. Por isso nunca trabalhei por eles. Anos e anos e anos. Até os esqueci. Depois que fiquei adulta e chata deixei de acreditar em sonhos e passei para as planilhas: metas e objetivos a serem alcançados. Mas também sem muito afinco! Achando que bastava caminhar para a frente.

Esse misto de acomodação com esperança foi minha inglória e burra meta de vida até agora. Eu não aprendi ou não acreditava que a gente tem de correr atrás? E agora, que eu vejo isso, será que eu sei fazer do jeito certo?

De ser aeromoça, já desisti faz tempo. Sempre soube que nunca teria mais de um metro e sessenta! Mas posso viajar, que é o que me atraía na profissão: o glamour de estar cada dia num lugar, conhecer os lugares mais lindos, apesar de sempre só... tem muito a ver comigo, não?

Quanto à pianista, nunca passei das primeiras notas do Pour Elise no piano da Patty (e olha que isso faz décadas, no plural mesmo!). Um certo pianinho amarelo povoa o meu imaginário infantil e também as histórias de minha mãe.

Mas o que me leva à fazenda? Como é que eu, urbanóide semiconvicta, criada no mais puro asfalto preto de São Paulo iria ser fazendeira? Com medo de minhoca? Não se explica.

Mas é que os verdes campos me enchem os olhos... os cavalos e as vacas nos pastos, as hortas e pomares, os homens trabalhando a terra... os ovos e as galinhas, a lenha e o fogão, as laranjas - sempre elas - e os pés, os terreiros de café, os cantos dos pássaros, os cri-cris dos grilos e, principalmente, a estrelada noite rural.

A simplicidade.
A pureza.
A primariedade das coisas em si é que me atraem.

João de barro é fazendeiro do ar. Manoel de Barros é fazendeiro de sonhos. Quero ser sua vizinha. Quero habitar essas redondezas. Quero brincar com o som e o cheiro das coisas simples desses meus campos.

Essas três ocupações eleitas nos meus planos infantis têm em comum um árduo trabalho solitário. Contínuo. Ininterrupto. Que só se percebe no final, pois leva uma vida toda. Ligam-se ao fato de se trabalhar como uma moura, de sentir que o fardo é tão pesado. De certo devem explicar porque sou tão cheia de fé. Fé e esperança.

Mas vou mudar. Vou começar a mudança repicando os cabelos. O vento vai passar por eles arejando os meus pensamentos. Como um sopro forte tirando a poeira da velha caixa fechada há anos. Depois que o vento passar, vou abrir a caixa, ver aquela bailarininha dançando o Pour Elise: tã nã nã nã nã nã nã nã nã....
e vou pensar: "Repica, Renê, repica", por que agora eu vou atrás do cabelo ventanil. 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Rumo a 2011

Apenas por um curto período
alguém saiu de férias
                             e deixou um bilhete
 comum:

"Vou ali e volto já..."

Obrigada a todos que me "leram" nesse curto período! Obrigada pela energia, pelas sugestões, pelos comentários... obrigada por serem matéria-prima destas minhas palavras-primas. Estarei em contato com velhos amigos, saborosas lembranças e lugares que amo na minha cidade. Vou colher material de pesquisa...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Os avós de Benedita

Benedita estava chorando no parapeito da janela. Aquela mesma, terceiro andar, de fundos. Podia chorar porque sabia que ninguém a observaria. Tinha certeza disso.

Olhava árvores cinquentenárias que não lhe pertenciam. Faziam parte de uma cidade que não era a dela. E apenas um beija-flor, uma andorinha, um sabiá e um pardal ou outro lhe faziam companhia. Havia chovido, mas estava calor, as aves revoavam ao seu redor, e ela estranhava o fato de que em pleno século 21 ainda havia um jardim de fundos, com uma goiabeira remanescente, habitada por aves tão leves, tão livres. Benedita e esses pássaros - que ainda sabia reconhecer - estavam juntos se olhando. Eles cantavam e ela chorava, sentindo solidão.

Toda vez que isso acontecia, velhas lembranças lhe vinham à cabeça e faziam com que ela se sentisse ainda pior, massacrada pela angústia de se achar tão egoísta. É que nessas horas de solidão ela gostava de ir ao encontro de seus avós. Para sentir amor. Só que também sentia muito desconforto em pensar que eles deveriam sair de lá de onde estivessem para vir em seu socorro.

Ela achava egoísmo de sua parte. Muito egoísmo. Mas era o seu único escudo protetor. É assim que sentia amor. A certeza do amor. Nessas horas, não pensava em seus pais, que estavam tão ocupados, na saúde e na doença juntos. Não pensava em seus filhos: um ainda criança e precisando muito dela, outro ainda adolescente e, embora bradar que não, também precisando muito dela. Não pensava em seu companheiro, o qual já a abandonara faz tempo! Esse, decididamente não precisava mais dela. Mas não, nessas horas, Benedita pensava em seus avós mortos, que a amavam.

Seus avós retornavam de suas memórias e a acolhiam, no seu carinho, no seu modo de ser, cada um a seu jeito. Então, ela podia voltar a ser criança, querida, acolhida, escolhida, protegida, especial. Ela se sentia abraçada. Voltava a ser um projeto de esperança, um projeto de vida com a certeza de que tudo iria dar certo e de que as coisas iriam fluir.

Pelos olhos dos seus avós mortos, que a amaram muito, ela voltava a se sentir bendita, abençoada, voltava a se sentir menina e com esperanças no futuro. Benedita voltava a seguir um caminho e a acreditar nele.

Como queria abraçar de novo os seus avós...